O Beta
Na entrada da cidade, como prometido, às cinco horas da tarde, todas as barraquinhas de comida ou brincadeiras divertidas já estavam armadas para festejarem junto do povo. Ações de caridade para a cidade ou fora dela sempre eram feitas na mudança de estações, ou quando descobriam que em algum lugar perto dali algo ruim aconteceu. O Norte não era grande, então as noticias sempre corriam muito rápido, e metade da população se conhecia, viviam em harmonia, apesar de algumas jovens, ou adolescentes mais velhos não se darem muito bem.
Mas, as competições mesmo começariam quando as pessoas iam chegando para comprarem e se divertirem como queriam pela noite. Aurora parou em frente a sua barraquinha contemplando a grande beldade que fez sozinha já que Adrian passou o verão na floresta com Raíza e Lívia com Yan em algum buraco, seus quatro melhores amigos que não podia viver sem.
— Está como você quer? Porque posso mudar alguma coisa antes que de ir embora, é claro. – Aurora cruzou os braços encarando o irmão que quis chorar – Aurora, a Raíza tá chegando e a Lívia também, as duas no mesmo lugar vão tornar a minha vida um inferno.
— Essa noite nós não queremos brigas, queremos apenas vender e ganhar a competição. Você vai ficar aqui com a gente, é a barraquinha da nossa escola, e você é o capitão do time. – O lembrou deixando o ruivo pensativo, e logo riu — eu prometo assistir uma partida do jogo de vocês quando as coisas acalmarem e eu achar alguém para me substituir – avisou a garota igualmente com seus cabelos ruivos mais caídos para o rosa escuro, bonito e charmoso combinando com a pele extremamente branca dando uma breve olhada para a quadra rodeada de grades e vários jogadores amadores já dentro jogando uma partida ou duas de lacrosse.
— Só por que você é a minha irmãzinha. Porque se não fosse eu te deixava aqui sozinha por que nenhuma das suas amigas que tanto defende. – Cruzou os braços olhando atentamente para Aurora que o fitou de volta — e não é porque eu gosto de ficar perto de mulher.
— Todos nós sabemos o quanto você gosta de mulher – Adrian engoliu a próxima fala quando escutou a voz de Lívia atrás de si. A viu parar ao seu lado e aquele cheiro o deixou todo desconcertado. Expirou o aroma mais profundamente sentindo até mesmo o sabor da sua vagina quase. Ele gostava dela, amava, era um fato a ser dito. Contudo, além do cheiro de Lívia, também tinha o de Yan, que vinha das unhas até o último fio de cabelo. — Não é mesmo?
— E você o quanto gosta de homens. Quer uma lista? – Rebateu. A loira cruzou a pequena rua para parar ao lado de Aurora. Adrian encarou-a de frente.
— A lista dos filhos da puta? – Adrian se ofendeu — dar pra você ir para o lado, porque os clientes começaram a chegar e NÓS-SOMOS-AS-MELHORES – Cantou como uma líder de torcida bem alto, fazendo o ruivo tampar os ouvidos. — A-S M-E-L-H-O-R-E-S – ergueu uma mão deixando a outra na cintura. Aurora olhou de um para o outro e revirou os olhos começando a servir os clientes que começaram a pedir mais doces.
Homens corriam até a barraca das lideres de torcida que depois de Lívia, Raíza e Mika chegaram mais tarde. Todas uniformizadas com sorrisos enormes e se ajeitaram para fazer um único número para chamar atenção, mesmo que não precisasse.
— Como sempre, elas chamam atenção com corpos bonitos e aquelas rabas balançando. Ah! – Gusta se juntou há Adrian um pouco longe das garotas. — Eu adoro vê-las jogando aquelas mãozinhas para o alto e não se esquece das reboladas – Adrian suspirou — e a mais linda com certeza é a Aurora.
— Hey! – Adrian acordou do seu quase sono enfrentando o moreno de olhos claros que riu pedindo para ir mais devagar — não fala da minha irmã. Tá ouvindo? Ninguém fala da minha irmã.
— Todo mundo fala da sua irmã, babaca – Yan se encostou na parede tomando o último gole de sua cerveja — fala o quanto é gostosa, e uma patricinha da quinta geração Romero. – Adrian voltou-se para a barraca — parece um cristal que não pode ser quebrado. Um anjo que caiu do céu, a gêmea do Adrian que ninguém consegue chegar perto. – Eles se encararam. — sonho de consumo? A virgem? A garota que eu particularmente gosto, é tudo isso.
— Yan, se você fosse o destinado da Aurora, isso já tinha ficado claro pra todo mundo, vocês teriam o momento de vocês e pronto. Supera. - Gusta debochou do ruivo que não reclamou.
— Cala a sua boca também – Adrian murmurou bravo, claro. Além de saber que Yan estava certo, não gostava que falassem da sua irmã.
— Vamos parar de graça – Gusta se meteu entre os dois abrindo outra cerveja — parece que teremos convidados, fui informado depois de um uivo esplendido que a chegada dos Iakisamoto no nosso território é a novidade do ano – Os três ficaram sérios — como mataram o alfa deles?
— Raiden Iakisamoto era o mais antigo da família, e o alfa mais respeitado do lado Sul. – Yan murmurou dando uma última olhada em Aurora e virou para os meninos — Takashi Yumura matou o alfa para tomar o poder e mandou todos da alcateia sumirem o mais rápido possível. – Gusta entreabriu os lábios achando tudo àquilo totalmente… maluco.
— O Iakisamoto que veio na frente disse que Raiden mandou que eles fossem embora, que viessem para o lado Norte. Eu também viria, nosso Alpha é reconhecido, e todos aqui conheceram Raiden, ele esteve com o nosso Alpha, passaram algumas semanas conversando tem meses, eles eram aliados, talvez esse fosse algum plano que nunca vamos saber por que o Alpha não falaria nada. - Adrian voltou a falar.
— Pelo menos vocês tem acesso a mais coisa que todo mundo. - Gusta murmurou — Eu sinto muito pela morte dele.
— Ele quis proteger sua alcateia. Se ficassem e lutassem, morreriam. Todo mundo eu acho, a família é grande e tem várias pessoas que não são lobos. – Adrian voltou a falar, calmo e encarou os dois com seus olhos amarelados — Jin Iakisamoto, um lobo que não se transformou, ele nem sabe da existência, mas pode descobrir depois de uma surra. Ou ele fica vivo e se cura, ou morre humano. E nós vamos fazer isso.
— Eu? Credo – Gusta se afastou da parede quebrando o contato visual – eu não quero me meter nessas suas loucuras de surrar os outros para apressar a transformação. Tem gente que tem o mesmo sangue, mas não se transforma em porra alguma – Sorriu para ele dando uma piscadela formal do ruivo em sua frente para a irmã que animava alegremente em frente a sua barraca junto das amigas e foi em direção a elas.
— QUER SABER? EU NÃO PRECISO DE VOCÊ NÃO. EU TENHO O FABRICIO, ELE VAI CHEGAR. VOCÊ NÃO FAZ PARTE DO MEU TRISAL – Gritou o mais alto que pode e chamou atenção ao seu redor, inclusive para Yan que revirou os olhos os fechando rapidamente — não que ele pudesse fazer parte. – foi diminuindo o tom de voz e as pessoas comentando… voltou para a parede — ele não faria parte do meu trisal. – Yan o encarou.
— E quem é o seu trisal? Raíza, Lívia e você? – Adrian pensou um pouco na possibilidade, seria loucura. Mas…!
— Estou falando do alfa – Yan se ajeitou no lugar arrumando os ombros — de mim, de você, e do Fabricio.
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— O lado Norte – a voz de Yuri chegava como espinhos nos ouvidos de Riki que não aguentava mais está no mesmo lugar que aquele homem que por coincidência era seu tio, irmão do seu marido… Da família. — O norte do país. Uma pacata cidade cheia de lobisomens que seguem um alfa desconhecido. Mas que protegem como loucos. Cheia de belas mulheres com sorrisos lindos. Mulheres que entenderiam nossa fome de lobo, e nem estou falando de carne fresca no meio da floresta. – Riki parou em frente à casa que morariam agora. — Eu estou tão animado pra começar a explorar cada canto desse lugar – virou para o mais novo — e achar o alfa.
— Você não pode chegar à cidade e caçar o alfa como se ele fosse alguém que todos conhecessem. Tem uma razão para ninguém saber quem porra é esse homem. – Riki se estressou. Desde a morte de Raiden ele não estava pensando direito. — Não queremos confusão com o alfa, nós precisamos dele, somos uma alcateia sem alfa, um clã sem líder, e a gente sem vingança, não vai acontecer – murmurou a última parte fazendo o outro Iakisamoto resmungar. Na Margem da floresta ao lado, Yoshi apareceu sem camisa e com do zíper aberto para o prazer do seu marido que desviou o olhar para a casa grande.
— Achou alguma coisa? – Yuri perguntou se aproximando, Jin estava próximo e não queria que o babaca ouvisse. Se ele estava ou não despertando seu lobo aos poucos, logo, logo estaria escutando tudo que falavam, mesmo de longe.
— Achei Adrian Romero, o beta. E ele não é uma pessoa que pode se aproximar. – Parou logo atrás de Riki soltando um beijo doce em seu pescoço. — O desgraçado só tem dezessete anos, e eu senti medo de estar parado perto dele no meio da floresta, só eu e ele. – Yuri cruzou os braços, confuso da cabeça aos pés, Riki o encarou também. — Estou falando do poder de tremer as pernas, não de sexo.
— Ah, claro, gostei da ideia de saber que você se sentiu atraído por um garoto de dezessete anos no meio da floresta – Riki se virou por inteiro para o marido que riu desviando o olhar para todos os lados — você tá brincando comigo? Porque se tiver é melhor parar ou eu parto sua cara em quatro, oito, dezessete partes. – Yoshi esperou aquele homem parar o surto pra sorrir e gargalhar junto de Yuri, que lhe jogou uma camisa. — Acha que eu to brincando?
— Não duvidaria da sua força, nunca, jamais. – Ajustou a blusa no corpo e pegou os tênis no banco de trás — mas eu amo você, e não tem homem nenhum no mundo que me faça desistir dos seus cabelos… - foi se aproximando devagar — eu adoro puxar eles quando estamos juntos.
— Ah, cala a boca – Yuri puxou Yoshi para se distanciar e olhou para a porta da casa grande já que o moreno foi o primeiro a sair do carro para explorar a casa – JIN, VAMOS EMBORA.
— Pra onde você vai levar o meu marido? E o meu irmão? – Trincou os dentes quando viu Jin sair da casa colocando o casaco de volta.
— Você viu o que estava rolando na entrada da cidade? É um evento, Riki. Eventos são bons para interagirmos e quem sabe despertamos a curiosidade do alfa, ele virá até a gente em algum momento, então vamos mostrar que chegamos. Que tal? – Riki olhou dele para Yoshi e deu as costas — Adrian Romero vai está lá. Com seus dezessete anos de pura masculinidade e noviça – Riki parou no meio do caminho e virou para ver os três.
— Confio no que eu tenho aqui debaixo de todas essas roupas – provocou os três, apontando para seu corpo. Yoshi sorriu seguindo na direção como se fosse um imã, entretanto, Yuri o puxou pela camisa de volta o levando para o outro lado. — CUIDA DO MEU IRMÃO, ESSE BABACA AÍ VAI DAR BEBIDA PRA ELE.
— Talvez isso seja bom – Jin sussurrou para si mesmo quando parou no meio da rua. O bairro parecia calmo como se não morasse ninguém por perto. A floresta atrás pegava os dois lados da rua como se não tivesse mais para onde ir. Colocou as mãos no bolso sentindo o corpo reagir a cada barulho que ouvia nitidamente, Jin podia jurar que se sua vista ficasse amarelada ele gritaria e sairia correndo para a floresta de quatro, encarou as arvores mais atrás, uma trilha que mais parecia o caminho para a felicidade…
— Jin? – O moreno se assustou pelo contato em seu ombro e encarou o homem ao seu lado. — Você tá bem? Se for se meter na floresta que seja com uma mulher, porque sozinho não rola – Yoshi o virou de volta pra estrada enquanto Yuri olhava ao redor, o cheiro, a queimadura da pele de Jin, os sons. Encarou o menor de novo que voltava para a estrada depois de andar em direção à floresta como uma voz o chamasse…
— Eu quero beber – avisou e saiu andando na direção da festa.
— Tá, mas você só tem dezessete anos e Riki falou pra você não beber – Yoshi correu atrás do moreno que andava o mais depressa possível.
Yuri continuou parado olhando ao redor e focou nas costas de Jin que caminhava emburrado se desviando dos comentários de Yoshi e dos comandos de Riki. Com certeza, Yoshi era bem mais legal quando fazia tudo que ele queria para ter ao menos quinze minutos sozinho com o seu amado. Yuri respirou mais um pouco, já puto e seguiu o caminho, Jin não havia se tornando um lobo ainda, mas quando se transformasse ele não seria um lobo qualquer.
Os três seguiram juntos até quase entrada, onde já mostrava inúmeras barraquinhas com todos os tipos de coisa. Yoshi sorria para tudo que via. Qualquer coisa colorida ou com flores que tivesse corações lembrava Riki, e iria comprar alguma coisa para o marido já que o deixou chateado com a história de Adrian. Mas também, não poderia ser diferente, quando o viu pela primeira vez sem camisa no meio da floresta, Adrian lhe passou uma das piores sensações, mesmo com seus genes de lobos e a sabedoria, o poder do beta de um alpha o afetou grandemente, e não era como se soubesse o que era aquilo, afinal, Yoshi foi beta um dia. Mas dependendo do seu alpha, o poder mesmo que pequeno, era grande.
— Eu quero duas cervejas – Yoshi escutou ao longe a voz de Yuri e virou na direção onde ele já abria uma e dava a Jin, primeiramente ele correria e diria para Jin não beber aquela porcaria, no entanto, quando viu o menor beber aquela garrafa de uma vez só e devolver a Yuri sem dizer nada, achou melhor ficar calado. Jin passou pelo trauma de sofrer um acidente e ver com seus próprios olhos as feridas se curarem e ainda ouvir da boca de seus pais que tudo aquilo foi um sonho, estava na cara que o garoto não acreditou, mas ele insistiria naquilo, e com certeza correria para os braços de Riki, e Riki não mentiria, nunca. — vai com calma aí. Essas bebidas são fortes.
— Eu sei – Jin limpou os lábios e olhou ao redor procurando algo que o interessasse e seus olhos pararam na quadra de lacrosse do outro lado da rua um pouco mais afastado. Ele riu de canto. Na escola antiga, era o capitão do time e gostava do jogo, ele sempre lhe proporcionava momentos ótimos, era o jogo onde podia descontar toda sua raiva. — Será que podemos jogar?
— É só formar seu time – Yoshi se aproximou olhando o pequeno aviso grudado nas grades. — podemos arrumar mais algumas pessoas para jogarem – Jin concordou e seguiu com o cunhado em direção à quadra.
Entraram pelo portão já aberto e rapidamente Yoshi conseguiu enxergar Adrian do outro lado do campo. Engoliu a seco ao ver que ele não estava sozinho e quando seus olhos se cruzaram, não foi apenas Adrian que o encarou. Yoshi acenou com a cabeça e o ruivo lhe respondeu indo em sua direção.
— Aquele é Adrian Romero – murmurou para Yuri que puxou o ar para sentir seu cheiro, queria sentir tudo ao seu redor inclusive o poder do alfa, quem sabe. Seus olhos que já pescavam todo tipo de movimentos focaram nos detalhes — nos encontramos de novo.
— Alguma coisa me diz que isso será frequente de hoje em diante - Adrian arrumou o taco o batendo no chão e olhou para Jin. Pela carinha do novo e os olhos que brilhavam enquanto assistia à partida que rolava na quadra, Adrian concluiu ser o lobo que não se transformava. Isso se realmente fosse um lobo. — Essa é sua família?
— Esse é meu cunhado, Jin Iakisamoto – empurrou o garoto para frente e Adrian o fitou da cabeça aos pés, — e esse é o Yuri, meu irmão, e o menos importante da família.
— Eu tenho o meu valor – avisou Yuri mais atrás cruzando os braços. — mas não jogo esse negócio, é muito violento pra mim. Eu prefiro assistir de longe – foi sincero.
— Não é um jogo para perdedores. Vão querer jogar? – Adrian sorriu para interagir, afinal, tinham que conhecer perfeitamente os Iakisamoto, ordens do alfa.
— O Jin – bradou Yoshi, tão rápido que fez os mais novos se assustarem — ele é um bom jogador, desde criança vem praticando era capitão do time na nossa cidade.
— Tudo bem. Vou colocar ele no time do meu amigo, infelizmente o meu já está completo, mas acho uma vaga pra ele no outro – Adrian chamou Gusta que veio correndo tentando armar um coque com o cabelo longo. — Tenho o último integrante do seu time, Jin Iakisamoto. – Gusta olhou de Adrian para Jin que sorriu de canto. Se fosse para jogar ele até gargalhava, tudo que o Iakisamoto queria era apenas isso, aliviar o estresse e esquecer que seus pais não acreditaram na sua versão da historia: EM QUE ELE TINHA SE CURADO.