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Estava um pouco nebuloso lá fora, você não conseguia ver nada pela janela. Eu estava esperando que a chaleira elétrica terminasse de aquecer a água. Dei dois passos à frente, segurando uma caneca rosa, que sempre uso. Foi um presente de um amigo e, a partir daquele momento, não usei mais nada além da mesma coisa.
Além disso, eu não tinha muita escolha.
Quando estou prestes a segurar a água quente, sinto uma batida na porta.
"Papai!"
Presto atenção, meu pulso acelerado. Pior ainda, não consigo ver a porta. Tenho de ir até lá e abrir a porta. Morávamos no campo, um lugar tranquilo e inóspito. Não tínhamos muitos vizinhos, apenas minha cunhada, que morava a poucos metros de distância.
Quando eu abro a porta... eu o encontro. Ele está me observando, com aquela atitude arrogante, ar de grandeza e seu perfume invade tudo quando ele passa.
"Não fique babando por ele!"
Meus nervos estão à flor da pele.
-Olá, você precisa de alguma coisa? -pergunto.
Ele demora um pouco, porém, segura meu queixo e me beija. Abro os olhos de surpresa. Ele bate a porta e, felizmente, minhas três filhas não estão em casa. Elas estão com a tia, mas me arrependo de não tê-las comigo. Ele faz isso sem pressa, ansioso por meus lábios, e eu pelos dele.
Ainda assim, eu me seguro por um segundo para olhar seu rosto. Os olhos cor de mel não têm expressão, mas sinto que meu coração está prestes a explodir.
-Não podemos", murmuro, fazendo uma careta.
-Já se passaram dias. Eu preciso ver você. Você não responde às minhas mensagens, não atende às minhas ligações. Ontem eu passei aqui e você não abriu a porta.
-Você sabe por que... Você sabe por que... Está errado. Não podemos fazer isso, Emilio, você sabe quem você é.
-Sofia... Eu não sei, mas não consigo me impedir de querer estar aqui e ver você.
-Emílio...